Trabalho final da disciplina de Sociologia e Cultura!
TRABALHO
FINAL
SOCIOLOGIA – ANTHONY GIDDENS
O PROCESSO CIVILIZADOR – NORBERT ELIAS
A CORROSÃO DO CARÁTER – RICHARD SENNETT
INTRODUÇÃO:
O seguinte trabalho ira
fazer uma análise da perspectiva do design sob a visão de Anthony Giddens,
Norbet Elias e Richard Sennett, esta ponte será fundamentada nos livros
“Sociologia”, “O processo civilizador” e a “Corrosão do caráter”. O objetivo principal será entender a
importância do design nos diversos campos de atuação do ser humano, abordando
questões distintas, refletidas nos conceitos sociológicos culturais, na cultura
e na modernidade, a fim de tentar entender como design se encaixa e acompanha o
processo de evolução social. O trabalho estudará também a importância do
profissional de design no âmbito sociológico e tentará estabelecer a real
importância da sociologia no desenvolvimento de um projeto de design.
DESENVOLVIMENTO:
A sociologia é o estudo da vida social humana,
grupos e sociedade. Através dela observa-se o quão necessário é adotar-se uma
perspectiva mais abrangente do modo como os seres humanos agem e das razões
pelas quais agem. Ela mostra que o que é considerado natural, inevitável, bom
ou verdadeiro pode não o ser, e o que as pessoas tomam como dado em suas vidas
é fortemente influenciado por forças históricas e sociais. A imaginação
sociológica implica, acima de tudo, abstrair-se das rotinas familiares da vida
cotidiana de maneira a poder olhá-la de forma diferente. Um bom exemplo é o
café, que através da perspectiva sociológica deixa de ser apenas uma bebida e
passa a ter um valor simbólico. Observa-se que em todas as sociedades, na
realidade, beber e comer proporcionam ocasiões para a interação social e o
desempenho de rituais e tal fornece temáticas ricas para o estudo sociológico e
implementação do design.
O
design, por sua vez, é a atividade projetual responsável pelo planejamento,
criação e desenvolvimento de produtos e serviços. É um processo que busca
soluções criativas e inovadoras para atender às características dos produtos,
às necessidades do cliente e da empresa de forma sintonizada com as demandas e
oportunidades do mercado. O design busca soluções originais de função, de uso
de materiais e tecnologias, de produtividade e sustentabilidade, agregando
novos valores a produtos e serviços. Mas, afinal, qual a relação da sociologia
com o design?
Tanto
a sociologia quanto o design dependem do estudo da vida social humana para a
elaboração de seus trabalhos. A perspectiva abrangente do modo como os seres
humanos agem é fundamental em cada uma das áreas descritas. Os designers e os
sociólogos estão interessados nas razões pelas quais os contrastes culturais agem
na vida dos seres humanos. Estudar as transações globais é uma tarefa
importante nesses dois campos de atuação, pois, para eles é importante perceber
de que forma a globalização aumenta a consciência das pessoas acerca de
questões que se passam em pontos remotos do planeta. Os sociólogos, mais
especificamente, se interessam em incentivar a atuação diária humana em função
desse novo conhecimento, o design, por outro lado, possui interesse em
compreender os fatores que influenciam as pessoas a agir de tal modo, para que
assim, possa atender diferentes demandas de mercado.
Os
meios sociais de onde provimos tem muito a ver com o tipo de decisões que
consideramos adequadas. Embora todos sejamos influenciados pelo contexto social
em que nos inserimos, nenhum de nós tem o seu comportamento determinado
unicamente por esses contextos. É tarefa da sociologia investigar as relações
entre o que a sociedade faz de nós e o que nós fazemos de nós próprios e, é
papel do design usar isso como ponto estratégico na elaboração de novos
projetos, para que no processo criativo possa tornar as qualidades e características das empresas
e de seus produtos mais interessantes e familiares ao mercado.
Cada
meio social possui uma identidade cultural com diferenças únicas que incorporam
características de diferentes civilizações. O estudo do desenvolvimento das
diferentes civilizações também é algo de extrema importância na sociologia e no
design. No texto “O processo civilizador” de Norbert Elias, observa-se que o
conceito de civilização esta sempre mudando de acordo com as características,
mudanças de valores e pensamentos das diferentes sociedades existentes no
mundo. Isso pode justificar o porquê do Design e também, da Sociologia estarem
sempre renovando o seu “cardápio” de estudos.
Este
livro trata especificamente da mudança nos costumes da sociedade europeia entre
os séculos XIII e XIX, período no qual, inicialmente, não se via manifestações
de Design. Entretanto, a revolução industrial trouxe uma série de mudanças que
aos poucos tornaram o papel do designer fundamental na organização
industrial. Ela mudou de forma dramática
a face do mundo social, incluindo muitos dos nossos hábitos pessoais. A maior
parte da comida que ingerimos e das bebidas que tomamos são hoje em dia produzidos
por meios industriais. Entretanto, isso não ocorreu de maneira repentina e
várias transformações foram fundamentais para o desenvolvimento do processo
industrial, dentre elas, destacam-se o aumento da produção que atendia a
mercados cada vez maiores e mais distantes do centro fabril. Aumentava também o
tamanho das oficinas e das fábricas, as quais reuniam um número maior de
trabalhadores e passavam a concentrar um investimento maciço de capital em
instalações e equipamentos. A produção, por sua vez, tornava-se seriada através
do uso de novos recursos técnicos. Crescia a divisão de tarefas com uma
especialização cada vez maior das funções e a mecanização tornou-se um fator
dominante no campo trabalhista. E, quem lucrava com esta mecanização era a
categoria incipiente dos designers. À medida que a produção se mecanizava em
alguns setores, o valor monetário do projeto ia-se tornando cada vez mais
explícito.
Outro
fator que contribuiu para a inserção do Design na sociedade foi às mudanças
ocorridas na burguesia ao longo do século XX que também foram tratadas por
Elias em seu livro. Além da história dessa mudança, Elias estuda o processo por
meio do qual as mudanças se processam e, um fenômeno importante a ser analisado
nesse sentido, foi a crescente atenção atribuída ao estudo dos chamados
“fatores humanos” como aspectos condicionantes do processo de Design.
O
processo de mudança nos costumes ocorrido nesse período pode ser descrito como
o avanço do processo civilizador. A sociedade europeia, altamente refinada do
século XIX, não chegou àquele grau de refinamento rapidamente, mas
gradualmente. E é desta mesma forma gradual que se dá o desenvolvimento do
Design ao longo dos tempos, pois, é função do profissional estar sempre
sintonizado com as mudanças e novidades do mundo globalizado.
Boa
parte da leitura se baseia no tratado de Erasmo e grande parte do que ele diz
ultrapassa nosso patamar de delicadeza. Elias destaca que este livro tem como
objetivo “a função de cultivar sentimentos de vergonha”. Todavia, um dos
sintomas do processo civilizador é se assustar e achar estranho os hábitos das
gerações passadas, o nosso tipo de comportamento evoluiu daquilo que nós
chamamos de incivil. Sendo assim, é bem possível que o que consideramos como
civilizado hoje, pode não ser para as gerações futuras. Observa-se então que,
as sociedades humanas nunca deixam de estar em processo de estruturação. E a
sociologia permite que olhemos para o mundo social a partir de muitos pontos de
vista, pontos de vista estes que abrem novas portas na busca de soluções
eficientes no campo do Design.
O estudo do desenvolvimento e do comportamento
humano faz com que o designer possua um melhor envolvimento comunicacional em
relação à empresa e ao mercado, aos meios produtivos, ao meio ambiente e à
qualidade de vida das pessoas, pois, muito frequentemente, se compreendermos
corretamente o modo como os outros vivem, adquirimos igualmente uma melhor
compreensão dos seus problemas, podendo então o designer, utilizar essas
referências culturais nos meios visuais que fazem a associação da empresa junto
ao público ou então, usar da compreensão dos problemas para solucionar
possíveis obstáculos.
O
tratado de Erasmo estuda o comportamento das pessoas em sociedade e de maneira
simplista, pode-se dizer que ele é como se fosse um “manual de etiqueta”,
dedicado à educação de crianças e jovens, que estariam sendo preparados para
fazer parte da sociedade, da nobreza, e assim seriam diferenciados dos
camponeses. Com seu tratado, Erasmo
expressou na palavra civilização algo que atendia a uma necessidade social da
época.
Erasmo
fala, por exemplo, da maneira como as pessoas olham: O olhar esbugalhado é
sinal de estupidez, o olhar fixo é sinal de inércia, o olhar dos que tem
inclinação para a ira é cortante demais, o olhar dos impudicos é vivo e
eloquente e diz que se seu olhar demonstra uma mente plácida e afabilidade
respeitosa, isto é o melhor.
Ele
fala também de coisas que seriam, na época, consideradas certas e erradas. Ele
diz que não deve haver meleca nas narinas, que o camponês enxuga o nariz no
boné ou no casaco e o fabricante de salsichas no braço ou no cotovelo. Diz que
ninguém demonstra decoro usando a mão e, em seguida, enxugando-a na roupa.
Explica que é mais descente pegar o catarro em um pano, preferivelmente se
afastando das pessoas. Se, quando o individuo assoa com os dois dedos e alguma
coisa cai no chão, ele deve pisá-la imediatamente com o pé. Explica também como
sentar e cumprimentar alguém.
Através
do tratado, observa-se que na época praticamente não existiam garfos e quando
os há são para tirar a carne da travessa. As facas e as colheres são
frequentemente usadas em comum. Nem sempre há talheres especiais para todos, se
te oferecem alguma coisa liquida, prove-a e, em seguida, devolva a colher
depois de secá-la. Erasmo diz que é errado ser o primeiro a se servir, que
enfiar os dedos no caldo é coisa dos camponeses. Que não se deve cutucar ao
redor da travessa, mas sim, pegar o primeiro pedaço que ver. Erasmo diz que é
pouco elegante retirar a comida mastigada da boca e recolocá-la no prato, que
caso você não consiga engolir, é melhor virar-se discretamente e cuspir em
algum lugar. Os pratos também eram raros e as mesas sempre tinham pouca coisa.
Todos
na época comiam com as mãos, entretanto, na classe alta havia maneiras mais
refinadas de fazer isso. Esses lavavam as mãos antes das refeições, mas, como
não existia sabonete, apenas estendiam as mãos e o pajem derramava agua sobre
elas, que às vezes era levemente perfumada. Na classe alta ninguém põe ambas as
mãos na travessa é mais refinado usar apenas três dedos de uma única mão.
Mergulhar no molho o pão que mordeu é coisa de camponês. Este é um dos sinais
de distinção das classes.
Sendo
assim, temos que, com grande cuidado Erasmo delimita em seu tratado toda a
faixa de conduta humana, como também, as principais situações da vida social e
de convívio. E com a mesma naturalidade, fala das questões mais elementares e
sutis das relações humanas.
Erasmo
fazia também referencias à onipresença dos anjos para justificar o controle de
impulsos aos quais a criança esta acostumada. O processo civilizador, ou seja,
que molda os costumes que mais tarde caracterizam um homem como civilizado são
moldados por meio do despertar da ansiedade dos jovens, a fim de adequá-los ao
padrão de conduta social desejado na época. Elias destaca que neste período da
idade média, outras instituições sociais tem um papel importante no controle
dos impulsos da criança e, atualmente, observamos que o Design também tem esse
controle. Ao se fazer uso das ferramentas do design; dos seus fundamentos; das
suas metodologias de trabalho; das suas maneiras de interagir na formação da
cultura material; das suas maneiras de proceder na concepção dos objetos; das
suas maneiras de utilizar as tecnologias e os materiais; do seu característico
sentido estético enquanto atividade projetual; das suas maneiras de realizar a
leitura e a configuração do entorno; o design torna-se, no seu sentido e
significado mais amplos, um instrumento com um grande potencial para participar
e colaborar ativamente na educação formal e informal das crianças e jovens
cidadãos nestes tempos de mudança, podendo tornar seus impulsos mais humanos
quando bem empregados.
Segundo
Elias a família é a única instituição com a função de instilar controle dos
impulsos. Só assim a dependência social da criança face aos pais torna-se
particularmente importante como alavanca para a regulação e modelagem
socialmente requeridas dos impulsos e emoções. Todavia, o texto “A corrosão do
caráter”, de Richard Sennett, mostra o contrário. Com o caráter individual
afetado pelo novo capitalismo, que não oferece condições para a construção de
uma narrativa linear de vida, sustentada na experiência, observa-se a
substituição do trabalhador fordista para o trabalhador flexível. Ele
demonstra, ao utilizar o recurso metodológico de histórias de vidas, como o
trabalhador fordista (exemplificado pela história de Enrico), apesar de ter seu
trabalho burocratizado e rotinizado, consegue construir uma história cumulativa
baseada no uso disciplinado do tempo com expectativas a longo prazo. Já para o
trabalhador flexibilizado (como no caso de Rico, filho de Enrico), as relações
de trabalho, os laços de afinidade com os outros não se processam a longo
prazo, em decorrência de uma dinâmica de incertezas e de mudanças constantes de
emprego e de moradia que impossibilitam os indivíduos de conhecer os vizinhos,
fazer amigos e manter laços com a própria família. Sendo assim, diferente de
Elias, que acreditava na influencia do papel familiar nos impulsos da criança,
para Richard, o mundo capitalista e trabalhista (porque não também o Design)
exercem maior influencia no processo de desenvolvimento da criança/jovem.
Nos
dias atuais a sociedade esta em contínua revolta contra o tempo rotineiro, com
o trabalho taylorista/fordista. Neste sentido, Richard considera que a
sociedade procura resolver o problema da rotina com a reestruturação do tempo,
com instituições mais flexíveis, criando novas formas de poder e controle.
Essas novas formas apresentam uma total ruptura do presente com o passado como
forma de atacar a burocracia; a especialização flexível, isto é, “as empresas
cooperam e competem ao mesmo tempo, buscando nichos no mercado que cada uma
ocupa temporariamente, e não permanentemente, adaptando a curta vida de produto
de roupas, têxteis, ou peças de maquinas”; a concentração do poder sem
centralização, que aparentemente parece dar ao trabalho em equipe maior controle
sob o trabalho que desenvolve, mas na verdade, quem decide o que fazer e
quando, ainda é o capitalista, restando aos trabalhadores apenas fazer suas
atividades.
O
Design entra nesta busca insaciável com a função de suprir os diferentes nichos
de mercado que cada ser ocupa temporariamente. As frequentes mudanças na vida
das pessoas tornam preciso a criação de novos produtos/serviços que se adaptem
aos novos costumes, que logo, serão velhos. O Design de Moda, mas
especificamente, é algo que esta em constante mudança, carregando consigo
seguidores fiéis. Um produto não somente torna-se mais atraente por estar na
moda, como também faz-se indispensável a sua substituição , assim que saísse da
moda. O estilo é um propulsor sistemático de novas vendas e a ideia de
obsolescência estilística – ou seja, de que um artigo se tornasse obsoleto em
termos estéticos muito antes de se desgastar pelo seu funcionamento – começava
a tomar forma como estratégia mercadológica, pressionando o consumidor a
comprar novos produtos com frequência.
Quanto
mais o designer sabe a cerca das razoes pelas quais as pessoas agem e como
funciona a sociedade, mais provável será que ele seja capaz de influenciar o
mercado consumidor. Para alcançar esse conhecimento o profissional necessita de
uma formação bem eclética, que aborde não só os estudos projetuais, mas também,
análises sociológicas, biológicas, geográficas e etc. Auguste Comte, Émile
Durkhein e Karl Marx com suas ideias e teorias a respeito das sociedades, são
grandes nomes da sociologia que podem não só influenciar, como também
aperfeiçoar os trabalhos de design.
O
livro de Elias permite fazer algumas reflexões importantes a respeito das
atitudes e costumes da sociedade, como elas são moldadas, em geral, de cima
para baixo. Isto é, que primeiramente se molda o comportamento das elites
culturais e depois este comportamento é “popularizado”. Vê-se essa estratégia muito usada na
atividade projetual há muitos anos, um exemplo é da fabrica Wedgwood, do século
XVIII, que atento ao mercado de classe média observou o interesse destes pelos
artigos de elite. Através disso, projetou-se uma louça cujo aspecto se
aproximasse da porcelana, mas de preço acessível para atender esses
consumidores. Wedgwood conseguiu aperfeiçoar uma espécie de cerâmica esmaltada,
obtendo um incrível sucesso em sua produção industrial.
Um
elemento importante e central que se destaca no livro de Richard é como
trabalho assume uma centralidade indispensável na vida cotidiana dos seres
humanos, mostrando que o trabalho é uma arena onde as pessoas se afirmam ou se
negam em termos senso de si mesmas, dotando de sentido ou não as suas vidas e
se reconhecendo ou não nos outros. O livro faz com que o leitor se desdobre
diante dos próprios questionamentos que ele traz, questionando sobre as nossas
próprias histórias de vida, e sobre como estamos enfrentando os fracassos e
construindo nossas narrativas em um sistema capitalista que valoriza o
descartável, o volúvel, o curto prazo, e, acima de tudo o individualismo. Cabe então,
ao design, tentar tornar esse ciclo vicioso de troca de produtos menos
prejudicial às pessoas e ao mundo, uma alternativa para a contribuição neste
sistema cíclico é a utilização do design sustentável.
Em
suma, para o Design permanece a lição de como tudo que se projeta também
reflete um projeto de sociedade e de como é importante, portanto, manter sempre
uma consciência clara do tipo de sociedade que se deseja projetar.